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PARA ONDE VAI A ODONTOLOGIA?


      Certamente está pergunta está presente na maioria das cabeças dos cirurgiões-dentistas. Exatamente aqueles que são explorados em subempregos recebendo comissões sobre o produzido ou como servidores estatutários ou terceirizados dos serviços públicos estaduais e municipais ou então atendendo clientes de convênios em consultórios particulares, trocando seis por meia-dúzia. Existem em todo o território nacional redes de clínicas populares que são uma afronta total aos dispositivos trabalhistas, à ética e sobretudo à dignidade profissional.

      Atualmente, os bem sucedidos ou com estabilidade econômica resultante do exercício da odontologia se constituem, lamentavelmente, em exceções. Uma realidade que de certa forma atinge outras profissões de formação universitária. Para esses, a economia brasileira cresce para dentro, para as elites e as grandes corporações.
São várias as causas que determinam esta constatação. Dentre as principais situam-se as transformações impostas nas relações capital e trabalho, onde as leis trabalhistas são costumeiramente descumpridas sob a total omissão do Ministério do Trabalho, do Ministério Público do Trabalho e da Justiça do Trabalho. A terceirização, por exemplo, constitui-se numa flagrante fraude à CLT.

      Grandes empresas públicas como a Vale do Rio Doce, a Light, a Rede Ferroviária Federal, a Embratel, a Petrobrás, dentre outras que foram extintas ou privatizadas, demitiram ao longo dos trinta últimos anos cerca de um milhão de trabalhadores causando expressivos reflexos no mercado dos profissionais liberais, especialmente nos consultórios particulares.

      Em contrapartida, no mesmo período, a indústria do ensino universitário bombou livremente. O Brasil passou a ser o campeão em quantidade de cirurgiões-dentistas. Uma faculdade em cada esquina. É lógico que o resultado não podia ser outro. Não há empregos para todos e o profissional acaba se submetendo a situações incompatíveis com a importância da odontologia.

      O atendimento de qualidade no consultório particular ou na rede pública foi, aos poucos, sendo substituído por redes de clínicas populares, conhecidas como trambiclínicas, e pelo poderoso império dos convênios, lançando a qualidade técnica e a dignidade profissional na vala comum do mercantilismo e da exploração da força do trabalho.

      Diante desta situação, sem dispor do indispensável amparo legal, os sindicatos e os conselhos profissionais foram manietados. Imaginar, por exemplo, que os conselhos regionais de odontologia possam impedir o surgimento de faculdades ou mesmo colocar um inspetor da entidade em cada bairro para coibir a ação dos maus profissionais, é cegar-se diante da realidade em que vivemos.
Imaginar, por exemplo que um sindicato possa evitar ou punir os maus empregadores é andar na contramão desta mesma realidade.

      O poder para reverter esta realidade está nas mãos da união dos profissionais, do apoio da população e da ação conjunta de todas as entidades comprometidas com os reais interesses da odontologia. O dia em que todos os cirurgiões-dentistas paralisarem os atendimentos aos convênios por uma semana, será dado o passo decisivo.

      Um outro componente de igual importância na desvalorização do trabalho odontológico são os grandes grupos representantes da indústria e do comércio de produtos odontológicos que associados as técnicas de mídia deitam e rolam tranquilamente, ao ponto de divulgarem nos meios de comunicação (televisão, rádio, jornais, etc) “pesquisas científicas” fajutas como se fossem senhores absolutos da verdade científica. Tudo isso é feito à luz do dia impunemente com o aval do Estado, embora sem o apoio dos cirurgiões-dentistas. O objetivo é unicamente estimular o consumo e as vendas, visando apenas ao lucro. A população e os profissionais de odontologia ficam em último plano. Para mudar esse rumo é preciso dar o primeiro passo.

JOSÉ ROBERTO GOMES CORRÊA
Presidente

scdrj@scdrj.org.br

   

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